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Vilarinho de Negrões

Concelho de Montalegre

Em plena albufeira da barragem de Pisões, encontra-se uma aldeia perdida nos recortes das margens do rio Rabagão, que corre em paralelo ao rio Cávado e ali se concentra. Como uma aldeia flutuante, é na margem esquerda da albufeira que Vilarinho de Negrões se afirma como uma das mais rústicas e pitorescas desta região. Em razoável estado de preservação, pode ver-se muito do seu antigo edificado num espaço que convive com a ruralidade segundo rotinas ancestrais que teimam em não desaparecer. Desta barragem, erguida em 1964 no concelho de Montalegre, também se ouve a designação de Alto Rabagão, e quando do paredão, olhamos em volta, esbarramos com interessantes formas de relevo nomeadamente a sul, os «cornos» das Alturas de Barroso. 

Com nascente entre as serras do Barroso e do Larouco, o rio Rabagão atravessa todo o concelho de Montalegre ao longo de 37 quilómetros abraçando Vilarinho de Negrões, e quando atinge a sua cota máxima, transforma esta localidade numa pequenina península à qual chamam ilha. Quando as águas estão no seu ponto mais alto parecem entrar pelas casas dando a sensação de isolamento para quem observa. Em tempos de menor precipitação, a albufeira vê as suas águas contidas de forma mais tímida, e Vilarinho de Negrões transfigura-se para uma paisagem menos fresca, ainda que seja de Inverno, onde as bordas das vertentes que beijam as águas, mostram tons mais secos e mais áridos, formando praias fluviais. 

Para aqui chegar, parte-se da margem direita do rio onde se encontra a localidade de Pisões, pela N 103, e ruma-se à aldeia de Vilarinho de Negrões contornando toda a albufeira. A outra possibilidade obriga a atravessar o paredão da sumptuosa barragem e contornar a sul. Pelos dois itinerários, em ambas perspectivas, podem-se apreciar elementos paisagísticos, naturais e humanos, dignos de nos transportarem para outras paragens e outras eras.

Quem visita Vilarinho de Negrões, situada na freguesia de Negrões concelho de Montalegre, vivencia os costumes de uma aldeia tipicamente transmontana, com gentes ligadas à terra, de práticas agrícolas imemoriais como se o tempo não tivesse por ali passado. Sente-se, no entanto, o despovoamento característico de toda esta região de Trás-os- Montes e Barroso cujo abandono de casas e campos chega a desolar o observador. 

Quem se passeia em Vilarinho de Negrões pode contemplar fontanários muito antigos, datas nas casas que mostram bem a sua ancestralidade mas em razoável estado de conservação, capelas e até um relógio de sol. Para saciar o apetite de quem, com todos os sentidos absorve esta jóia transmontana, nada melhor que saborear a gastronomia que Vilarinho de Negrões tem para oferecer. O típico cozido à portuguesa, versão do local, alheiras, azeite, broa, azeitonas e vinho da região que deixam a promessa de um regresso a um Portugal “profundo”, quase desconhecido, quase esquecido.

Da história de Vilarinho de Negrões pouco se sabe para além de um ilustre e condenado monárquico de seu nome Domingos Pereira, que se recusou a aceitar a república em 1910 e lutou sempre pela restauração da monarquia até falecer em 1942. Nomeado sacerdote em 1862, filiou-se no partido progressista enquanto abade de Refojos e conhece Paiva Couceiro. Com ele luta a partir da Galiza pela restauração do regime monárquico e é um elemento importante do movimento de proclamação da “monarquia do Norte” em 1919. 

Novamente derrotado, busca o exílio em Espanha, sendo condenado à revelia a 20 anos de prisão. Regressa às escondidas e vem a morrer em Cabeceiras de Basto em 1942.Ficaram de tal forma conhecidas as suas acções militares que mesmo o perdão de Sidónio Pais aos monárquicos que andaram envolvidos nestes movimentos e no intuito de obter uma conciliação de todos os Portugueses, foram dele excluídos apenas duas pessoas: o próprio Paiva Couceiro e este Domingos Pereira, natural da aldeia de Vilarinho de Negrões.

TEXTO de Salomé Reis para os portais RegiaoCentro.ORG e RegiaoNorte.Net

 

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